terça-feira, 30 de agosto de 2011

Como se chovesse


Gota por gota a chuva cai.
Molha o passeio da praça
e rega as árvores com seus pingos,
transformando-se em vida!
E eu observava tudo de minha janela.

Meu amor, que estava no quarto,
ouviu o barulho da chuva e pois se a correr
até a porta da frente, para também ver.
Então, abriu a porta, permitiu que o vento
lhe conquistasse, deixando-se levar lentamente,

Como se estivesse anestesiada, submersa.
Agora a chuva molha delicadamente meu amor,
vejo os pingos se unindo para envolvê-la,
apossando-se de cada parte, de cada curva dela.
Agora a chuva molha delicadamente meu amor,
e enche de vida os meus olhos.

domingo, 1 de maio de 2011

Diga Lá Coração

São coisas dessa vida tão cigana
Caminhos como as linhas dessa mão
Vontade de chegar e olha eu chegando
E vem esta cigarra no meu peito
Já querendo ir cantar noutro lugar
Diga lá, meu coração da alegria de rever essa menina
E abraçá-la, e beijá-la
Diga lá, meu coração, conte as histórias das pessoas
Nas estradas dessa vida
Chore essa saudade estrangulada
Fale sem você não há mais nada
Olhe bem nos olhos da morena
E veja lá no fundo a luz daquela primavera
Durma qual criança no seu colo
Sinta o cheiro forte do teu solo
Passe a mão nos seus cabelos negros
Diga um verso bem bonito e de novo, vá embora
Diga lá, meu coração
Que ela está dentro em meu peito e bem guardada
E que é preciso mais que nunca prosseguir
Espere por mim, morena
Espere que eu chego já
O amor por você, morena
Faz a saudade me apressar 


domingo, 10 de abril de 2011

Sete Cidades

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar.
Me partiu em dois
E procuro agora o que é minha metade.

Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu.

Meu coração é tão tosco e tão pobre,
Não sabe ainda os caminhos do mundo.

Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu.

Vem depressa pra mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe.

Legião Urbana

segunda-feira, 4 de abril de 2011

quando bebo da água renovada que brota de teus olhos
não sinto o sal entranhado em sua substância,
sinto apenas a quentura que nasce do teu corpo
e nela construo minha casa, meu lar.

tiro meus sapatos e deito em tua cama,
confortado pelo calor que do teu corpo surge.
algo de imenso cresce em meu peito e sinto
cada vez mais perto de mim teu amplo amor

por coisas sem explicação e pessoas loucas.
tua sina: amar o perdido. o esquecido.
parece ser mais vivo sofrer, parece ser mais quente
se deixar estar e se deixar levar, assim tão imprudentemente.

te dou a chave do meu mundo para que faças tua casa
em mim, no meu peito ainda fraco de menino.
te dou meus mais longos olhares, minha mão mais suave,
pela quentura de uma lágrima tua caindo em minha face.

Shenna Luissa

quinta-feira, 24 de março de 2011

Penélope


Quem me dera estar à deriva
E tê-la como Penélope a me esperar,
Navegaria eu o quanto preciso fosse
Só para ter a ventura de viver em teus braços.

Quem me dera ter herdado a admirável astúcia
De um herói tão singular, porém acredito
Ter herdado a sensibilidade, que me leva
Aos prantos no momento de tua ausência.

Quem me dera fazer-te crer que para meu amor
Não existem feiticeiras, sereias, deusas ou ninfas
Que me façam desistir ou tropeçar no caminho
Que conduz até o teu colo tão harmonioso.

Meu júbilo seria sem igual ao retornar de minha
Odisseia diária e poder tê-la em meus aposentos de plebeu.

Se não for amor


Você me olha desse jeito
meus direitos e defeitos querem se modificar
meu pensamento se transforma me transporto simplesmente
penso coisa diferente vejo em você meu amor.
Se não for nada disso fique perto
dou um jeito e tudo certo não precisa se preocupar,
dê mais um sorriso e vá embora por favor volte outra hora
eu só quero ver você voltar.
Mas se não for amor não diga nada por favor
não apague esse sonho
pois meu coração nunca sofreu de amor.


Benito Di Paula

domingo, 20 de março de 2011

Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos

XVIII - Quem me Dera que eu Fosse o Pó da Estrada

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . .

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena ...

Fonte: Domínio Público

Longe de casa


Nascido num tempo próximo
Vivo em outro distante,
Não sendo deste no qual me encontro
Quero viver naquele ao qual pertenço.
Ora sinto vestir uma roupa velha,
Ora sou essa velha roupa
E sinto uma saudade de doer o ouvido.
Restam-me recordações que não são minhas.
E vivo minha saudade de doer o ouvido no violão.
Quem me dera ter só vinte e poucos anos.

Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos

XVI - Quem me dera

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Fonte: Domínio Público

terça-feira, 15 de março de 2011

Passeio


O mundo passava por nós
E eu acariciava seu rosto terno.
O mundo passava por nós
E eu apenas a olhava dedicado.

Atento, tentava entender o que sua voz
Não dizia, o que seu semblante murmurava.
Do cansaço cúmplices foram meus olhos,
Observavam o que feito para ser observado era.

Olhei com veneração cada traço seu
Sem querer ver além do que era permitido.
Enquanto isso o tempo me roubava lentamente,

E eu, despercebido, só queria ficar olhando,
Amando, sentindo seu cabelo correr
Pelos meus dedos, fazendo-me pensar mais.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Aquela Morena

Aquela morena impiedosamente charmosa
Fez-me querer cantar com saudade amarga
Uma música intimamente assombrosa,
Fruto da noite que aos olhos embriaga
Com seus néons atenuados pelo brilho
Do astro noturno, imperador do seu palco.
Como poderia passar sem cruzar tal brilho?

Poderia ela perceber meu olhar certeiro?
Certamente passaria despercebido
Como quando a noite chega na cidade.

Seu olhar incrédulo e atormentado
Hei de apagar de minha memória,
Então me restará o que ora entendo:
Nossos corpos sendo uma só matéria.
No passado apenas o sustento do por vir
Assim o temor haveremos de sucumbir;

Lembrar-me-ei de teu olhar somente
Umedecido da ternura que emana
Instintivamente de sua casa latente.
Seremos fartos como não se imagina,
Seres construídos de afeto, compreensão
Abrigados pela cumplicidade sem razão.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Se Tudo Pode Acontecer


Se tudo pode acontecer
se pode acontecer qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover

pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão

e a gente caminhando de
mão dada de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida ainda
de manhã no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer

se tudo pode acontecer...


Arnaldo Antunes
Fotografia: Tânia Regina

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Desabafo!


Hoje me sinto fraco, sem palavras. Pareço com poucos motivos. Estou só em casa ouvindo meus filósofos, companheiros inseparáveis. Inseparáveis como os sentimentos, os quereres. Hoje acordei atrasado, a noite foi mais longa do que deveria, os pensamentos não me abandonaram por mais que implorasse. Quisera eu conseguir pensar em nada. Bem que tentei dormi, tentei até a hora de acordar chegar. Levantei assustado e correndo, passei o dia em outro planeta, em outro corpo, bem distante de mim. Ainda me sinto ausente.

Sinto vontade de chorar, porém não faço porque não sei chorar como alguns que deixam simplesmente a lágrima cair, sem mais alarde. Admiro estes. Pareço com uma criança quando choro. Sou muito fraco, em alguns momentos não tenho a menor força para ir buscar o que quero por mais que eu queira e quando quero, quero sempre muito. No fim das contas gosto de me sentir assim, é quando eu percebo que ainda estou vivo.

Estou fraco e espero que seja momentâneo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011


Queria saber das flores,
Entender todos os cheiros,
Sentir no vento tua presença,
Esquecer teu pedido lacrimoso.

Olho pela janela e não entendo.
O que vejo são pedras e pó,
E uma distância que ergue muros
Com portas estreitas e secretas.

Uma música se cria no pensamento,
Mas possui notas ausentes no violão.
O vinho não recria, simplesmente aflora
E assim, sem propósitos, me embriago.

Mais que das flores, queria saber de ti.
Dos cheiros só entendo o teu.
O vento insisti em ti soprar para longe...
E continuo a deriva no mar dos pensamentos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Contato Imediato

Peço por favor
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear

No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal

Se o pensamento duvidar
Todos os meus poros vão dizer
Estou pronto para embarcar
Sem me preocupar e sem temer

Vem me levar
Para um lugar
Longe daqui
Livre para navegar
No espaço sideral
Porque sei que sou

Semelhante de você
Diferente de você
Passageiro de você
À espera de você

No seu balão de são joão
Que caia bem na minha mão
Ou numa pipa de papel
Me leve para além do céu

Se o coração disparar
Quando eu levantar os pés do chão
A imensidão vai me abraçar
E acalmar a minha pulsação

Longe de mim
Solto no ar
Dentro do amor
Livre para navegar
Indo para onde for
O seu disco voador


Arnaldo Antunes - Marisa Monte - Carlinhos Brown


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Pintor

Pinto nesta tela com cores
Que não consigo distinguir.
Faço traços, me perco nos rabiscos
Sem consciência do produto final.

Eles vão tomando forma e vida,
Saltam da tela palpitando,
Recriando possibilidades infinitas
Na ânsia de personificar qualquer coisa.

Embriagado pela brancura da folha
Quero preencher a todo custo
O branco silêncio que se apresenta
Desafiando minhas faculdades.

Cada traço vira um som, uma palavra.
Por vezes um conforto sedutor,
Que, mesmo dotado de suavidade
Não é suficiente para embriagar-me.

No fim do dia quando vem o silêncio
Encontro-me diante de outra tela.
Eis que faço nova todas às cores
Num ciclo intenso de ressurreição.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Todo Sujo de Batom

Eu estou muito cansado
Do peso da minha cabeça,
Desses dez anos passados, presentes
Vividos entre o sonho e o som

Eu estou muito cansado
De não poder falar palavra
Sobre essas coisas sem jeito
Que eu trago no peito
E que eu acho tão bom.

Quero uma balada nova
Falando de brotos, de coisas assim
De money, de lua, de ti e de mim
Um cara tão sentimental

Quero uma balada nova
Falando de brotos, de coisas assim
De money, de lua, de ti e de mim
Um cara tão sentimental

Quero a sessão de cinema das cinco
Pra beijar a menina e levar a saudade
Na camisa toda suja de batom

Quero a sessão de cinema das cinco
Pra beijar a menina e levar a saudade
Na camisa toda suja de batom

BELCHIOR

domingo, 9 de janeiro de 2011

My Dear Friend


Fica o silêncio das lágrimas
Que rolam nas maças murchas,
A dor que dilacera o peito amigo
E a certeza que nada, ninguém consola.
Fica o carinho guardado no coração,
As palavras ditas, mal ditas, bem ditas.
Fica a saudade que parece sem fim.
As conversas povoam a memória,
Agora será uma terna lembrança.
O jeito e ficar e esperar.
Você está bem, mas não está aqui.
Sabemos do mesmo fim e tememos.
Corremos o tempo todo sem perceber
As possibilidades, as pessoas.
Nascemos e morremos!
Vai com os anjos! Vai em paz!