domingo, 20 de março de 2011

Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos

XVI - Quem me dera

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Fonte: Domínio Público

terça-feira, 15 de março de 2011

Passeio


O mundo passava por nós
E eu acariciava seu rosto terno.
O mundo passava por nós
E eu apenas a olhava dedicado.

Atento, tentava entender o que sua voz
Não dizia, o que seu semblante murmurava.
Do cansaço cúmplices foram meus olhos,
Observavam o que feito para ser observado era.

Olhei com veneração cada traço seu
Sem querer ver além do que era permitido.
Enquanto isso o tempo me roubava lentamente,

E eu, despercebido, só queria ficar olhando,
Amando, sentindo seu cabelo correr
Pelos meus dedos, fazendo-me pensar mais.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Aquela Morena

Aquela morena impiedosamente charmosa
Fez-me querer cantar com saudade amarga
Uma música intimamente assombrosa,
Fruto da noite que aos olhos embriaga
Com seus néons atenuados pelo brilho
Do astro noturno, imperador do seu palco.
Como poderia passar sem cruzar tal brilho?

Poderia ela perceber meu olhar certeiro?
Certamente passaria despercebido
Como quando a noite chega na cidade.

Seu olhar incrédulo e atormentado
Hei de apagar de minha memória,
Então me restará o que ora entendo:
Nossos corpos sendo uma só matéria.
No passado apenas o sustento do por vir
Assim o temor haveremos de sucumbir;

Lembrar-me-ei de teu olhar somente
Umedecido da ternura que emana
Instintivamente de sua casa latente.
Seremos fartos como não se imagina,
Seres construídos de afeto, compreensão
Abrigados pela cumplicidade sem razão.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Se Tudo Pode Acontecer


Se tudo pode acontecer
se pode acontecer qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover

pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão

e a gente caminhando de
mão dada de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida ainda
de manhã no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer

se tudo pode acontecer...


Arnaldo Antunes
Fotografia: Tânia Regina

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Desabafo!


Hoje me sinto fraco, sem palavras. Pareço com poucos motivos. Estou só em casa ouvindo meus filósofos, companheiros inseparáveis. Inseparáveis como os sentimentos, os quereres. Hoje acordei atrasado, a noite foi mais longa do que deveria, os pensamentos não me abandonaram por mais que implorasse. Quisera eu conseguir pensar em nada. Bem que tentei dormi, tentei até a hora de acordar chegar. Levantei assustado e correndo, passei o dia em outro planeta, em outro corpo, bem distante de mim. Ainda me sinto ausente.

Sinto vontade de chorar, porém não faço porque não sei chorar como alguns que deixam simplesmente a lágrima cair, sem mais alarde. Admiro estes. Pareço com uma criança quando choro. Sou muito fraco, em alguns momentos não tenho a menor força para ir buscar o que quero por mais que eu queira e quando quero, quero sempre muito. No fim das contas gosto de me sentir assim, é quando eu percebo que ainda estou vivo.

Estou fraco e espero que seja momentâneo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011


Queria saber das flores,
Entender todos os cheiros,
Sentir no vento tua presença,
Esquecer teu pedido lacrimoso.

Olho pela janela e não entendo.
O que vejo são pedras e pó,
E uma distância que ergue muros
Com portas estreitas e secretas.

Uma música se cria no pensamento,
Mas possui notas ausentes no violão.
O vinho não recria, simplesmente aflora
E assim, sem propósitos, me embriago.

Mais que das flores, queria saber de ti.
Dos cheiros só entendo o teu.
O vento insisti em ti soprar para longe...
E continuo a deriva no mar dos pensamentos.